Fraternidade Jesus Salvador
Por: Pe. Leomar, sjs
Freqüentemente, diante de acontecimentos difíceis, tais como perdas, humilhações, falhas e pecados, nos sentimos desestabilizados e, não poucas vezes, utilizemos a palavra “crise” para designar estes momentos de tensão ou de confusão interior. Este fenômeno pode ocorrer tanto em nossa vida pessoal como também em realidades humanas de peso como, por exemplo, a Igreja. Resta-nos compreender o que pode significar para nós, cristãos, a palavra “crise”.
Utilizando os termos de John Powell em seu livro, “Arrancar Máscaras !Abandonar Papéis”, a palavra chinesa para designar “crise” tem dois caracteres: o primeiro significa “perigo” e o segundo significa “oportunidade”. Falando de outro modo, para os pessimistas toda crise é um evento catastrófico que nos leva à destruição e à morte. Para o otimista, a crise será um marco de crescimento, uma oportunidade para nos tornarmos mais maduros, um trampolim para mergulharmos mais e melhor no mistério da vida, a fim de melhor compreendê-la e de melhor vivê-la.
Numa linguagem mais diretamente cristã, a crise pode se tornar um “espaço” concreto de experiência de Deus, um Kairós, um tempo oportuno, onde Deus nos ajuda a nos despojarmos de nossas seguranças humanas e nos mostra nitidamente que podemos, apoiados por Ele, ir além.
A Igreja toda passa por um momento bastante delicado. Por causa dos infelizes escândalos de alguns sacerdotes em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, todos nós, de modo especial, nós sacerdotes, acabamos por nos sentir atingidos por este flagelo. Nas palavras do Santo Padre, o Papa Bento XVI, em sua carta pastoral aos fiéis da Irlanda, dirigindo-se aos sacerdotes e religiosos que buscam viver com fidelidade a sua vocação: “Todos nós estamos a sofrer como conseqüência dos pecados dos nossos irmãos que traíram uma ordem sagrada ou não enfrentaram de modo justo e responsável as acusações de abuso (...) Neste tempo de sofrimento, desejo reconhecer-vos a dedicação da vossa vida de sacerdotes e de religiosos e dos vossos apostolados, e convido-vos a reafirmar a vossa fé em Cristo, o vosso amor à sua Igreja e a vossa confiança na promessa de redenção, de perdão e de renovação interior do Evangelho. Deste modo, demonstrareis a todos que onde abunda o pecado, superabunda a graça (cf. Rm 5, 20).
Sim, não deixa de ser um momento de crise para toda a Igreja, mas crise entendida como oportunidade, como um maior e melhor exame de consciência não só para a Igreja, mas para todo o mundo. Se antes da década de 60 se se difundia uma moral sexual pautada pela repressão e pelo medo, após os anos sessenta todo um movimento de liberação sexual contribuiu para o nascimento de uma liberdade sexual, freqüentemente divorciada de responsabilidade. Os resultados estamos colhendo em todas as camadas da sociedade. Hoje em dia, quase tudo apela à sensualidade. Basta assistir a um pouco de televisão, navegar na Internet ou dar uma olhada nas publicidades em nossas ruas e praças. Logicamente há muita coisa boa nos meios de comunicação, entretanto, muitas vezes, movidos pela lógica do mercado - onde não se visa a verdade, mas o lucro - os meios de comunicação podem ceder à tentação de satisfazer a estes interesses meramente econômicos e difundir programações que tornam a nossa sociedade ainda mais doente e menos instruída. É preciso romper com esta lógica que destrói a beleza das várias dimensões humanas, e, de um modo todo especial, a da sexualidade.
Não ignorando a situação das vítimas desses abusos e rezando para que a justiça lhes venha em socorro, creio que estes acontecimentos podem ser uma oportunidade para que nós, sacerdotes, ouvindo as palavras do Santo Padre acima citadas, nos entusiasmemos ainda mais pela nossa vocação e compensemos estes desgastes com uma entrega ainda mais generosa e fiel ao serviço do Evangelho, no meio do povo querido onde Deus nos colocou. Creio que tudo isso pode levar a Igreja a aprofundar e a melhorar a preparação dos futuros sacerdotes, dando ainda maior espaço ao diálogo entre formação humana e formação espiritual. Uma espiritualidade que não se enraíza numa humanidade bem equilibrada é uma espiritualidade que tende à destruição.
Creio que todos estes acontecimentos devem suscitar um amor e uma oração ainda mais constantes do povo de Deus pelos sacerdotes, apoiando-nos e sustentando-nos em nossa luta diária para correspondermos fielmente à vontade de Deus. Creio, enfim, que toda crise pode ser uma grande oportunidade para crescermos no caminho da maturidade, em todos os níveis, seja ele pessoal ou comunitário.
Termino este artigo com um trecho da oração de Bento XVI, no término de sua carta aos fiéis da Irlanda: “Possa a nossa tristeza e as nossas lágrimas, o nosso esforço sincero por corrigir os erros do passado, e o nosso firme propósito de correção, dar abundantes frutos de graça para o aprofundamento da fé nas nossas famílias, paróquias, escolas e associações...”
Deus abençoe a todos e que Nossa Senhora projeta você e sua família
Pe. Leomar Nascimentos de Jesus,sjs – Prior Geral









